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O
CONTROLE DAS DST NO BRASIL
INTRODUÇÃO
Nos
últimos anos, principalmente após o inicio da epidemia de aids, as DST
readquiriram importância como problemas de saúde pública. Entretanto,
alguns fatos negativos têm sido percebidos no contexto da atenção às
DST em nosso País:
-
são
escassos os dados epidemiológicos relativos às DST; apenas a aids
e a sífilis congênita são de notificação compulsória.
Entretanto, raros são os serviços onde a notificação é
realizada de forma sistemática;
-
os
portadores de DST continuam sendo discriminados nos vários níveis
do sistema de saúde. O atendimento é muitas vezes inadequado,
resultando em segregação e exposição a situações de
constrangimento. Tal se dá, por exemplo, quando os pacientes têm
que expor seus problemas em locais sem privacidade ou a funcionários
despreparados que, muitas vezes, demonstram seus próprios
preconceitos ao emitirem juízos de valor. Essas situações ferem a
confidencialidade, discriminam as pessoas com DST e contribuem para
afastá-las dos serviços de saúde;
-
a
irregularidade na disponibilização de medicamentos específicos é
mais uma das causas de afastamento dos indivíduos com DST dos serviços
de saúde. Isso ocorre por provisão insuficiente ou pelo uso para
tratamento de outras enfermidades;
-
para
muitas das DST, as técnicas laboratoriais existentes não
apresentam a sensibilidade e/ou a especificidade satisfatórias.
Pouquíssimas unidades são capazes de oferecer resultados de testes
conclusivos no momento da consulta. Soma-se a isso o fato de
que o sistema público de saúde no Brasil apresenta reduzidas condições
para a realização dos testes e freqüentemente os técnicos
responsáveis estão desmotivados e/ou despreparados.
A
conseqüência mais evidente dessa situação de baixa resolutividade
dos serviços é a busca de atendimento em locais nos quais não seja
necessário se expor, nem esperar em longas filas, ou seja: as farmácias
comerciais.
AS
DST COMO PRIORIDADE
Por
que as DST devem ser priorizadas? São quatro os critérios para a
priorização de agravos em saúde pública: magnitude, transcendência,
vulnerabilidade e factibilidade.
Magnitude:
embora os poucos dados epidemiológicos existentes não se prestem a
fazer inferências para o País como um todo, ao menos permitem,
quando conjugados às informações geradas em outros países, a
realização de estimativas que concluem pela elevada freqüência das
DST em nosso país. Isto, associado ao alto índice de automedicação,
torna o problema ainda maior, já que muitos dos casos não recebem a
orientação e tratamento adequados, ficando sub-clínicos,
permanecendo transmissores e mantendo-se como os elos fundamentais na
cadeia de transmissão das doenças.
-
Transcendência :as
DST são o principal fator facilitador da transmissão sexual do
HIV; algumas
delas, quando não diagnosticadas e tratadas a tempo, podem evoluir
para complicações graves e até o óbito; algumas
DST, durante a gestação, podem ser transmitidas ao feto,
causando-lhe importantes lesões ou mesmo provocando a interrupção
espontânea da gravidez; as
DST podem causar grande impacto psicológico em seus portadores;
as
DST causam também grande impacto social, que se traduz em custos
indiretos para a economia do País e que, somados aos enormes custos
diretos decorrentes das internações e procedimentos necessários
para o tratamento de suas complicações, elevam dramaticamente
esses custos totais.
-
Vulnerabilidade:
as DST, por suas características epidemiológicas, são agravos
vulneráveis a ações de prevenção primária, como por exemplo a
utilização de preservativos, de forma adequada, em todas as relações
sexuais. Além disso, com exceção das DST causadas por vírus,
existem tratamentos eficazes para todas elas; portanto, à medida
que se consiga conscientizar os pacientes da necessidade de procurar
rapidamente um serviço de saúde para tratar-se adequadamente e a
seus parceiros sexuais, se logrará, a curto prazo, romper a cadeia
de transmissão dessas doenças e consequentemente da infecção
pelo HIV.
-
Factibilidade:
o controle das DST é possível, desde que existam bons programas
preventivos e uma rede de serviços básicos resolutivos, ou seja,
unidades de saúde acessíveis para pronto atendimento, com
profissionais preparados, não só para o diagnóstico e tratamento,
mas também para o adequado acolhimento e aconselhamento dos
portadores de DST e de seus parceiros sexuais, e que tenham a
garantia de um fluxo contínuo de medicamentos e preservativos.
Princípios
para o Controle
Os
princípios básicos para o controle das DST, como em qualquer processo
de controle de epidemias, são os seguintes:
-
interromper
a cadeia de transmissão :
atuando objetivamente nos "elos" que formam essa corrente,
ou seja, detectando precocemente os casos, tratando-os, e a seus
parceiros, adequada e oportunamente.
-
prevenir
novas ocorrências : por meio
de aconselhamento específico, durante o qual as orientações sejam
discutidas conjuntamente, favorecendo a compreensão e o seguimento
das prescrições médicas e contribuindo de forma mais efetiva para
a adoção de práticas sexuais mais seguras.
ESTRATÉGIAS
PARA O CONTROLE
PREVENÇÃO
A
prevenção, estratégia básica para o controle da transmissão das DST
e do HIV, se dará por meio da constante informação para a população
geral e das atividades educativas que priorizem: a percepção de risco,
as mudanças no comportamento sexual e a promoção e adoção de
medidas preventivas com ênfase na utilização adequada do
preservativo. As atividades de aconselhamento das pessoas com DST e seus
parceiros durante o atendimento são fundamentais, no sentido de buscar
que os indivíduos percebam a necessidade de maior cuidado, protegendo a
si e a seus parceiros, prevenindo assim a ocorrência de novos episódios.
Deve-se sempre enfatizar a associação existente entre as DST e a infeção
pelo HIV. Deve-se, ainda, estimular a adesão ao tratamento,
explicitando a existência de casos assintomáticos ou pouco sintomáticos,
também suscetíveis a graves complicações. A promoção e distribuição
de preservativos deve ser função de todos os serviços que prestam
esse tipo de assistência. Desta forma, a assistência pode se
constituir em um momento privilegiado de prevenção.
DETECÇÃO
DE CASOS
Tão
importante quanto diagnosticar e tratar o mais precocemente possível os
portadores sintomáticos é realizar a detecção dos portadores
assintomáticos. Entre as estratégias que poderão suprir esta
importante lacuna estão os rastreamentos de DST assintomáticas,
especialmente sífilis, gonorréia e clamídia em gestantes ou
adolescentes, em serviços específicos, como aqueles que executam
atendimento ginecológico, em especial os de planejamento familiar, de
atendimento pré-natal e os serviços de prevenção do câncer cérvico-uterino.
Algumas mudanças na orientação dos profissionais de saúde para que
passem a fazer assistência integral aos usuários são de fundamental
importância pois, com isso, os indivíduos em situação de risco
teriam uma oportunidade para aconselhamento e/ou diagnóstico.
TRATAMENTO
IMEDIATO
O
tratamento deve ser instituído no momento da consulta,
preferencialmente com medicação por via oral e em dose única, ou com
o menor número possível de doses. A utilização de alguns fluxogramas
desenvolvidos, testados e já validados, provê a possibilidade de
tratamento imediato e a ruptura imediata da cadeia de transmissão.
Nesta abordagem são pesquisados os sintomas e/ou sinais que, agrupados,
forneçam o diagnóstico de uma síndrome. O tratamento visará, então,
os agentes etiológicos mais comuns na síndrome em estudo. Para que
esse tipo de assistência seja adequadamente implementada deve incluir
ainda a coleta de material que permita a realização do diagnóstico
etiológico em laboratório local ou de referência, aconselhamento para
redução de risco, tratamento de parceiros, orientações para adesão
aos tratamentos fracionados, promoção e distribuição de
preservativos.
O
MANEJO ADEQUADO DE CASOS DE DST
Os
portadores de DST devem receber atendimento e tratamento imediato. A
espera em longas filas e a possibilidade de agendamento para outro dia,
associadas à falta de medicamentos, são talvez os principais fatores
que induzem à busca de atenção diretamente com o balconista da farmácia.
Em si, o atendimento imediato de uma DST não é apenas uma ação
curativa, mas também, e principalmente, uma ação preventiva da
transmissão do HIV e do surgimento de outras complicações.
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TRIAGEM :
neste modelo considera-se extremamente desejável a existência de
um serviço de triagem confidencial que seja realizada por
profissionais de saúde devidamente preparados para essa finalidade.
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ESPERA :
o tempo de espera deverá ser utilizado para educação em saúde
por intermédio de vídeos educativos, atividades de aconselhamento
em grupo, incluindo outras questões de saúde e cidadania.
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CONSULTA
MÉDICA : além da anamnese e
do exame físico, neste momento devem ser feitas as coletas do
material das secreções e lesões para exame laboratorial; o
material para a colpocitologia oncótica deverá ser coletado
somente após efetivação da cura da DST que motivou a consulta.
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CONSULTA
DE ENFERMAGEM : a participação
de enfermeiros e outros profissionais de saúde deve ser estimulada
em todas as etapas do atendimento. O aconselhamento, a detecção de
situações risco e a educação para saúde das pessoas com DST e
seus parceiros são atividades nas quais esses profissionais deverão
atuar. Excepcionalmente os enfermeiros poderão prescrever e aplicar
medicamentos estabelecidos em programas de saúde pública e em
rotina aprovada pela instituição de saúde (segundo a Lei do Exercício
Profissional n° 7.498/86 de 25 de junho de 1986 e regulamentada
pelo Decreto nº 94.406, de 8 de Junho de 1987).
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ACONSELHAMENTO :
esta é uma atividade que deve estar presente em todo o atendimento
e não depender de apenas um profissional. A figura do médico é
extremamente importante no aconselhamento assim como a consistência
das informações a serem fornecidas por toda a equipe. Todos os
profissionais envolvidos no atendimento devem participar do processo
de aconselhamento.
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COMUNICAÇÃO
AOS PARCEIROS SEXUAIS: serão
considerados parceiros, para fins de comunicação ou convocação,
os indivíduos com quem o paciente relacionou-se sexualmente nos últimos
30 dias. O uso de cartões para comunicação aos parceiros sexuais
é desejável. De acordo com as possibilidades de cada serviço,
outras atividades poderão ser desenvolvidas. É fundamental que os
parceiros de gestantes com sífilis que não atenderem ao chamado
para tratamento sejam objeto de busca ativa.
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