|
| |
O SÍMBOLO DA MEDICINA:
TRADIÇÃO E HERESIA*
Joffre M. de Rezende
Prof. Emérito da Fac. de Medicina da Univ. Federal de Goiás
O valor de um símbolo não
está em seu desenho, mas no que ele representa.
Dois símbolos têm sido usados ultimamente em conexão com
a medicina: o símbolo de Asclépio, representado por um bastão tosco com uma
serpente em volta e o símbolo de Hermes, chamado caduceu, que consiste em
um bastão mais bem trabalhado, com duas serpentes dispostas em espirais
ascendentes, simétricas e opostas, e com duas asas na sua extremidade superior.
Ambos os símbolos têm sua origem na mitologia grega; o de
Asclépio, deus da medicina, é o símbolo da tradição médica; o de Hermes, deus do
comércio, dos viajantes e das estradas, foi introduzido tardiamente na
simbologia médica (fig.1).
|
 |
|
Figura 1 |
|
Símbolo de
Asclépio |
Símbolo de
Hermes |
Na mitologia grega, Asclépio é filho de
Apolo e da ninfa Coronis. Foi criado pelo centauro Quiron, que lhe ensinou o uso
de plantas medicinais. Tornou-se um médico famoso e, segundo a lenda, além de
curar os doentes que o procuravam, passou a ressuscitar os que ele já encontrava
mortos, ultrapassando os limites da medicina. Foi por isso fulminado com um raio
por Zeus. Após a sua morte, foi cultuado como deus da medicina, tanto na Grécia,
como no Império Romano [1,2]
Em várias esculturas procedentes de templos de Asclépio greco-romanos, o
deus da medicina é sempre representado segurando um bastão com uma serpente em
volta, o qual se tornou o símbolo da medicina. [3-7]
Não há unanimidade de opiniões entre os historiadores da medicina sobre o
simbolismo do bastão e da serpente. As seguintes interpretações têm sido
admitidas:
Em relação ao bastão:
* Árvore da vida, com o seu ciclo de morte e renascimento.
* Símbolo do poder, como o cetro dos reis
* Símbolo da magia, como a vara de Moisés
* Apoio para as caminhadas, como o cajado dos pastores
Em relação à serpente:
* Símbolo do bem e do mal, portanto, da saúde e da doença.
* Símbolo do poder de rejuvenescimento, pela troca periódica da pele
* Símbolo da sagacidade
* Ser ctônico, que estabelece ligação entre o mundo subterrâneo e a
superfície da Terra; elo entre o mundo visível e o invisível
As serpentes não venenosas (Elaphe longissima) eram preservadas
nos lares e templos da Grécia não só por seu significado místico como
pelo seu fim utilitário, já que devoravam os ratos.

Hermes, na mitologia grega, é considerado um
deus desonesto e trapaceiro, astuto e mentiroso, deidade do lucro e protetor dos
ladrões. [8-12] Seu primeiro ato, logo após o seu nascimento, foi roubar parte
do gado de seu irmão Apolo, negando a autoria do furto. Foi preciso a
intervenção de Zeus, que o obrigou a confessar o roubo. Para se reconciliar com
Apolo, Hermes presenteou-o com a lira, que havia inventado, esticando sobre o
casco de uma tartaruga, cordas fabricadas com tripas de boi. Inventou a seguir a
flauta que também deu de presente a Apolo. Apolo, em retribuição, deu-lhe o
caduceu.
Caduceus, em latim, é a tradução do grego kherykeion,
bastão dos arautos, que servia de salvo-conduto, conferindo imunidade ao seu
portador quando em missão de paz. O primitivo caduceu não tinha asas na
extremidade superior, as quais foram acrescentadas posteriormente [13,15].
Hermes tinha a capacidade de deslocar-se com a velocidade do pensamento
e por isso tornou-se o mensageiro dos deuses do Olimpo e o deus dos viajantes e
das estradas. Como o comércio na antigüidade era do tipo ambulante e se fazia
especialmente através dos viajantes, Hermes foi consagrado como o deus do
comércio. Outra tarefa a ele atribuída foi a de transportar os mortos à sua
morada subterrânea (Hades).[8-11]

Com a conquista da Grécia pelos romanos,
estes assimilaram os deuses da mitologia grega, trocando-lhes os nomes: Asclépio
passou a chamar-se Esculápio e Hermes, Mercúrio.
Segundo os filólogos, a denominação de Mercúrio dada a Hermes
pelos romanos provém de merx, mercadoria, negócio.[16] O metal
hydrárgyros dos gregos passou a chamar-se mercúrio por sua
mobilidade, que o torna escorregadio e de difícil preensão.[12] O planeta
Mercúrio, por sua vez, deve seu nome ao fato de ser o mais veloz do sistema
planetário.
O caduceu é, de longa data, o símbolo do comércio e dos viajantes, sendo
por isso utilizado em emblemas de associações comerciais, escolas de comércio,
escritórios de contabilidade e estações de estradas de ferro.
Surge, então, a questão principal do tema que estamos abordando. Por que
o símbolo do deus do comércio passou a ser usado também como símbolo da
medicina?
Mais de um fato histórico concorreu para que tal ocorresse.
1. No intercâmbio da civilização grega com a
egípcia, o deus Thoth da mitologia egípcia foi assimilado a Hermes e, desse
sincretismo, resultou a denominação de Hermes egípcio ou Hermes Trismegistos
(três vezes grande), dada ao deus Thoth, considerado o deus do
conhecimento, da palavra e da magia.[17] No panteão egípcio, o deus da medicina
correspondente a Asclépio é Imhotep e não Thot.[2]
2. Entre o século III a.C. e o século III
d.C. desenvolveu-se uma literatura esotérica chamada hermética, em alusão
a HermesTrismegistos. Esta literatura versa sobre ciências ocultas, astrologia e
alquimia, e não tem qualquer relação com o Hermes tradicional da mitologia
grega. O sincretismo entre Hermes da mitologia grega com Hermes Trismegistus
resultou no emprego do caduceu como símbolo deste último, tendo sido adotado
como símbolo da alquimia. Segundo Schouten, da alquimia o caduceu teria passado
para a farmácia e desta para a medicina.[18]
3. Um terceiro fato a que se atribui a
confusão entre o bastão de Asclépio e o caduceu de Hermes se deve à iniciativa
de um editor suíço de grande prestígio, Johan Froebe, no século XVI, ter adotado
para a sua editora um logotipo semelhante ao caduceu de Hermes e o ter utilizado
no frontespício de obras clássicas de medicina, como as de Hipócrates e Aetius
de Amida. Outros editores na Inglaterra e, posteriormente, nos Estados Unidos,
utilizaram emblemas similares, contribuindo para a difusão do caduceu.[13]
Admite-se que a intenção dos editores tenha sido a de usar um símbolo
identificado com a transmissão de mensagens, já que Hermes era o mensageiro do
Olimpo. Com a invenção da imprensa por Gutenberg, a informação passou a ser
transmitida por meio da palavra impressa, e eles, os editores, seriam os
mensageiros dos autores. Outra hipótese é de que o caduceu tenha sido usado
equivocadamente como símbolo de Hermes Trimegistos, o Hermes egípcio ou Thot,
deus da palavra e do conhecimento, a quem também se atribuía a invenção da
escrita. Em antigas prensas utilizadas para impressão tipográfica encontra-se o
caduceu de Hermes como figura decorativa..
4. Outro fato que certamente colaborou para
estabelecer a confusão entre os dois símbolos é o de se conferir o mesmo nome de
caduceu ao bastão de Asclépio, criando-se uma nomenclatura binária de
caduceu comercial e caduceu médico.
Este erro vem desde o século XIX e persiste até os dias de hoje.
Em 1901, o exército francês fundou um jornal de cirurgia e de medicina
chamado Le caducée, no qual estão estampadas duas figuras estilizadas do
símbolo de Asclépio, com uma única serpente.[13]
Desde então, a palavra caduceu tem sido usada para nomear tanto o
símbolo de Hermes, como o bastão de Asclépio.
5. O fato que mais contribuiu para a difusão
do caduceu de Hermes como símbolo da medicina foi a sua adoção pelo
Exército norte-americano como insígnia do seu departamento médico.
As justificativas e argumentos para essa adoção são falhas,
inconsistentes, e denotam, no mínimo, desconhecimento da iconografia mitológica
por parte dos que detinham o poder para promover a mudança. As informações que
se seguem sobre este episódio foram colhidas em grande parte no livro de Walter
Friedlander, The golden wand of medicine.[13]
O caduceu fora usado, entre 1851 e 1887, como emblema no uniforme
de trabalho do pessoal de apoio nos hospitais militares dos Estados Unidos para
indicar a condição de não combatente. Em 1887 este emblema foi substituído por
uma cruz vermelha idêntica a da Cruz Vermelha Internacional fundada na Suíça em
1864.
Os oficiais médicos usavam nas dragonas as letras M.S. (Medical Staff).
Em 1872, as letras M.S. foram substituídas por M.D. (Medical Department).
O Departamento Médico, contudo, possuía o seu próprio brazão de armas
com o bastão de Asclépio, desde 1818.[15]
Em março de 1902, os oficiais médicos passaram a usar um emblema
inspirado na cruz dos cavaleiros de São João, ou cruz de Malta, cujo simbolismo
em heráldica é o de proteção, altruísmo e honorabilidade.
Em 20 de março de 1902, o capitão Frederick P. Reynolds, Comandante da
Companhia de Instrução do Hospital Geral em Washington propôs substituir a cruz
de Malta pelo caduceu.
O general G. Sternberg, chefe do Departamento Médico, deu o seguinte
despacho: "A atual insígnia foi adotada após cuidadoso estudo e é atualmente
reconhecida como própria desta corporação. A alteração proposta, portanto, não é
aprovada".
Em 14 de junho do mesmo ano, o capitão Reynolds endereçou nova carta ao
Chefe do Departamento, refazendo sua proposta com novos argumentos. Em certo
trecho de sua carta diz o seguinte: "Desejo particularmente chamar a atenção
para a conveniência de mudar a insígnia da cruz para o caduceu e de adotar o
marrom como a cor da corporação, em lugar do verde agora em uso. O caduceu foi
durante anos a insígnia de nossa corporação e está inalienavelmente associado às
coisas médicas. Está sendo usado por várias potências estrangeiras,
especialmente a Inglaterra. Como figura, deve-se reconhecer que o caduceu é
muito mais gracioso e significativo do que o atual emblema" (cruz de Malta). "O
verde não tem lugar na medicina".
Nesse ínterim, houve mudança na Chefia do Departamento Médico e esta
segunda carta foi recebida pelo General William Henry Forwood, quem, não somente
aprovou a proposta como providenciou a confecção da nova insígnia. O desenho
elaborado tem sete curvaturas das serpentes, o que também revela desconhecimento
do caduceu tradicional, que contém, no máximo, cinco espirais.(fig. 2).
|
 |
Fig. 2.
Insígnia do Army Medical Department - U.S.A. |
Os argumentos usados pelo Cap. Reynolds
revelam sua confusão entre os dois símbolos. O caduceu jamais fora a insígnia da
corporação, mas do pessoal de apoio (steward) dos hospitais. O bastão de
Asclépio e não o caduceu é que está historicamente associado à medicina. Tanto
na Inglaterra, como na França e na Alemanha, os serviços médicos das forças
armadas utilizavam o bastão de Asclépio em seus emblemas e não o caduceu de
Hermes.
Finalmente, a cor verde tem sido usada em conexão com a medicina; tanto
assim que no Brasil o anel de médico tem, incrustada, uma pedra verde -
esmeralda ou imitação.
O argumento de ordem subjetiva de que a figura do caduceu é mais
estética do que a cruz de Malta ou o bastão de Asclépio é irrelevante, porquanto
não diz respeito ao significado de tais símbolos.
Deste modo, o caduceu foi implantado e se mantém até hoje como
insígnia do Corpo Médico do Exército norte-americano, o que muito contribuiu,
sobretudo após a Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918), para a sua difusão,
dentro e fora dos Estados Unidos, como símbolo da medicina.(13)
A Marinha norte-americana adotou igualmente o caduceu como emblema de
seu corpo médico, ao contrário da Força Aérea, que mantém em seu emblema o
bastão de Asclépio.
Os Serviços de Saúde Pública dos Estados Unidos, por sua vez, adotaram
um antigo emblema do Serviço Médico da Marinha, no qual o caduceu se cruza com
uma âncora e cujo simbolismo anterior era o do comércio marítimo.[22]
O primeiro comentário desfavorável à decisão do U.S. Medical
Department apareceu sob a forma de editorial em final de julho de 1902 na
publicação Medical News. Desde então, de tempos em tempos, surgem artigos
na imprensa médica, ora justificando, ora condenando o uso do caduceu como
símbolo da medicina.
Em 1917, o Tenente-coronel McCulloch, bibliotecário do Departamento
Médico, fez o seguinte comentário:
" I think that in this country we pay too little attention to the
historical and humanistic side of things. The caduceus or wand of Mercury now
used on the collar of the uniforme blouse of medical corps has really no medical
bearing wathever". (Eu penso que, neste País, nós prestamos muito pouca
atenção ao lado histórico e humanístico das coisas. O caduceu de Mercúrio agora
em uso na gola da blusa do uniforme do Corpo Médico não tem qualquer significado
médico) [19]
Fielding Garrison, notável historiador da medicina nos Estados Unidos e
também Tenente-Coronel do Corpo Médico no período de 1917 a 1935, procurou
defender a posteriori a adoção do caduceu pelo Departamento Médico a que
servia. Inicialmente, alegou que se tratava de um símbolo administrativo para
caracterizar os militares não combatentes, reconhecendo que o símbolo autêntico
da medicina era o bastão de Asclépio. Posteriormente, procurou justificar o uso
do caduceu como símbolo médico com base nos achados arqueológicos da civilização
mesopotâmica.
Nas escavações realizadas em Lagash fora encontrado um vaso talhado em
pedra sabão, de cor verde, dedicado pelo governador Gudea ao deus Niginshzida,
ligado à medicina. Neste vaso há duas serpentes dispostas de maneira semelhante
a do caduceu de Hermes. Garrison refere-se à figura como caduceu babilônico,
que teria precedido o caduceu da civilização grega.[20]
A verdade é que toda a nossa cultura baseia-se na civilização grega.
Todos os aspectos conceituais, técnicos e éticos da profissão médica, tiveram
seu berço na Grécia com a escola hipocrática. Foi na Grécia que a medicina
deixou de ser mágico-sacerdotal para apoiar-se na observação clínica e no
raciocínio lógico. O símbolo mítico de Asclépio, o bastão com uma única
serpente, representa a medicina grega em suas origens e nenhum outro símbolo,
muito menos o caduceu de Hermes, deverá substituí-lo.
Em 1932, S. L.Tyson escreveu um artigo na revista Scientific Monthly,
no qual dizia: "The erroneous symbol of medical profession in reality is the
emblem of the god of thieves" (o errôneo símbolo da profissão médica, é,
na realidade, o do deus dos ladrões). [21] Em resposta, Garrison
voltou a afirmar que o caduceu fora adotado no Departamento Médico do exército
como símbolo dos não combatentes e considerou a questão como "uma fútil
controvérsia".[13]
Em material informativo recente de divulgação pela Internet, do Army
Medical Department, encontra-se a seguinte explicação para a adoção do
caduceu de Hermes como símbolo da medicina: "Rooted in mythology, the
caduceus has historically been the emblem of physicians symbolizing knowledge,
wisdom, promptness, and skill." (Com suas raízes na mitologia, o caduceu
tem sido historicamente o emblema dos médicos, simbolizando conhecimento,
sabedoria, presteza e habilidade)[22]
Parece evidente a confusão entre Hermes da mitologia grega tradicional
com Hermes Trismegistos, o deus Thot da mitologia egípcia.
A Associação Médica Americana manteve o símbolo de Asclépio em seu
emblema, assim como a maioria das sociedades médicas regionais norte-americanas
de caráter científico ou profissional. De 25 associações médicas estaduais que
utilizam a serpente em seus respectivos emblemas, 23 usam o bastão de Asclépio.
São elas as dos Estados de Alabama, Califórnia, Flórida, Geórgia, Idaho,
Illinois, Kansas, Kentucky, Massachussets, Michigan, Mississipi, Missouri,
Nebraska, New Hampshire, New Mexico, New York, North Dakota, Oklahoma, Oregon,
Pennsylvania, Utah, Wisconsin e Wyoming. O caduceu é usado pelas associações dos
Estados de Maine e West Virginia.[22]
A Organização Mundial de Saúde, fundada em 1948, como não poderia deixar
de ser, adotou o símbolo de Asclépio. A Associação Médica Mundial, reunida em
Havana em 1956, adotou um modelo padronizado do símbolo de Asclépio para uso dos
médicos civis (fig.3).
|
 |
Fig. 3. Emblema adotado pela
Associação Médica Mundial
para uso dos médicos civis;
a serpente tem duas curvaturas
à esquerda e uma à direita |
As organizações médicas de caráter
profissional e de âmbito nacional de vários países, que possuem emblema com
serpente, adotam, em sua grande maioria, o símbolo de Asclépio, a começar pela
Associação Médica Americana, já citada. Entre as associações que assim procedem
citaremos as do Brasil, Canadá, Costa Rica, Inglaterra, França, Alemanha,
Suécia, Dinamarca, Itália, Portugal, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia,
países do sudeste asiático, China e Taiwan..[22]
Sociedades de história da medicina, sociedades científicas de
especialidades médicas, faculdades de medicina, revistas médicas e até empresas
de seguro-saúde como a aliança Blue Cross-Blue Shield utilizam o símbolo
de Asclépio.
É óbvio que todo símbolo pode ser estilizado, porém não pode ser
substituído por outro. Como estilizações originais do símbolo de Asclépio
podemos citar os seguintes exemplos:
-
o da Associação Paulista de Medicina e o
da Academia Brasileira de Medicina Militar, em que o bastão toma a
configuração de uma espada;
-
o da Escola Paulista de Medicina, em que o
bastão é o próprio tronco de uma árvore;
-
o da Sociedade Espanhola de Medicina do
Trabalho, em que o bastão assume a forma de uma chave inglesa como instrumento
de trabalho;
-
o da Associação Brasileira de Educação
Médica, em que o bastão é uma tocha, simbolizando a luz do saber;
-
o da Faculdade de Medicina de Ribeirão
Preto, em que a serpente assume o formato de um nó cirúrgico.
Algumas poucas organizações médicas de
âmbito nacional utilizam o caduceu de Hermes em seus emblemas, ou em sua forma
original, ou modificado, tais como as da Korea, Hong Kong e Ilha de Malta.[22]
O caduceu de Hermes, estilizado, foi também adotado pelo Serviço Médico
da Royal Air Force, da Inglaterra, divergindo do Serviço Médico do
Exército, que mantém seu clássico emblema com o símbolo de Asclépio desde 1898,
tendo comemorado o seu centenário em 1998.[22]
Variantes do caduceu têm sido igualmente utilizados, resultantes de duas
alterações introduzidas no modelo original: a primeira delas consiste em
eliminar uma das serpentes, mantendo as asas, tal como nos emblemas da
American Gastroenterological Association e da Facoltà di Medicina e
Chirurgia de Florença; a segunda, conservando as duas serpentes e eliminando
as asas, como nos emblemas da Società Italiana di Medicina Interna e da
empresa de seguro-saúde Golden Cross.
Nos Estados Unidos, onde é mais difundido o caduceu de Hermes como
pretenso símbolo da medicina, o mesmo é usado em algumas poucas Universidades e
sociedades médicas, sendo mais comum o seu emprego em hospitais e instituições
públicas e privadas ligadas à saúde.
Segundo um levantamento realizado até 1980, o caduceu é usado
principalmente pelas empresas que gerenciam planos de saúde naquele país,
chegando a 76% de quantas utilizam a serpente em seus emblemas.[13]
No dizer de Geelhoed, o caduceu tornou-se um símbolo evocativo da
situação atual da medicina, em que os aspectos econômicos e comerciais da saúde
se sobrepõem aos aspectos humanos, o que é inaceitável. Para aqueles que
desejarem preservar os ideais da tradição médica só há um símbolo verdadeiro,
que é o de Asclépio.
Como sugeriu Tyson, o símbolo de Hermes poderia ser usado, no máximo, em
carros funerários, já que uma das atribuições de Hermes era a de conduzir os
mortos à sua morada subterrânea.[21] Fora disso, o caduceu de Hermes, como
símbolo médico, é uma heresia.
As críticas desfavoráveis ao seu uso como símbolo da medicina persistem
até o presente, como demonstram os seguintes comentários que transcrevemos a
seguir, veiculados, respectivamente, em 1988, 1996 e 1999.
"The caduceus is a usurper - a latecomer to medical symbolism and a
pretender of suspect lgitimacy"(o caduceu é um usurpador, um retardatário no
simbolismo médico e um pretendente de duvidosa legitimidade).[23]
'"The association of physicians with thievery through the adoption of
Hermes caduceus as a medical symbol is undoubtedly undesirable and only those
cynics who accuse physicians of an excessive interest in making money may find
it apropriated" (A associação dos médicos com o furto pela adoção do caduceu
de Hermes como símbolo da medicina é, sem dúvida, indesejável e somente os
cínicos que acusam os médicos de interesse excessivo em ganhar dinheiro podem
achá-lo apropriado) [24]
"The caduceus has nothing to do with health, healing or medicl arts".
"The United States Army resolute in error as armies tend to be, adopted the
Caduceus as the insignia of the medical arm. The power of the military's
influence displaced the Aesculapian staff from the mythic place". (O
Caduceu nada tem a ver com a saúde, o tratamento das doenças ou as artes
médicas. O exército norte-americano, resoluto no erro como todos os exércitos
costumam ser, adotaram o caduceu como insígnia do seu Departamento Médico. O
poder da influência militar deslocou o bastão de Asclépio de seu lugar mítico)
[25](Collins, S.G., 18/03/1999). [20]
No Brasil, prevalece no meio médico o
símbolo de Asclépio. A Associação Médica Brasileira, assim como as sociedades
estaduais a ela filiadas que possuem emblema com a serpente, utilizam o símbolo
correto do deus da medicina.
Assistimos, porém, a disseminação do caduceu de Hermes entre nós,
através dos meios de comunicação: televisão, jornais, impressos, anúncios,
adesivos, desenhos em objetos e utensílios destinados a médicos e estudantes de
medicina. Conforme ressaltou o Prof. Alcino Lázaro da Silva, "a mídia
brasileira, por engano, por falácia, por má-interpretação, por má-informação ou
por má-fé passou a usar o símbolo do comércio como ilustração quando se refere a
notícias médicas".[26]
Também os softwares destinados a hospitais e consultórios
médicos, importados dos Estados Unidos, ou neles inspirados, muito têm
contribuído para a propagação do caduceu, ao utilizá-lo como identificador de
sua destinação.
Lamentavelmente, o caduceu como símbolo da medicina já pode ser
encontrado em nosso País em revistas e sociedades médicas de fundação mais
recente, em sites da Internet dedicados à medicina, e até mesmo em
impressos de algumas universidades.
Cremos ser necessária uma campanha de esclarecimento, sobretudo nas
Faculdades de Medicina, junto aos estudantes do curso de graduação, no sentido
alertá-los sobre o único e verdadeiro símbolo da medicina: o bastão de Asclépio
com uma só serpente. O caduceu de Hermes, símbolo do comércio, deve ser visto
como um símbolo impróprio aos nobres ideais da medicina.
Referências bibliográficas
1. CASTIGLIONI, A. Histoire de la médecine (trad.) Paris, Payot,
1931.
2. MAJOR RA. A History of medicine. Springfield, Charles C.
Thomas, 1954.
3. KERÉNYI C. Asklepios. Archetypal image of the physician’s
existence. London, Thames and Hudson, 1960
4. EDELSTEIN EJ, EDELSTEIN L. Asclepius. Collection and
interpretation of testimonies. Baltimore, The Johns Hopkins Univ. Press, 1993.
5. FONS JW Jr. The serpent as a medical emblem. Marquette Med.
Rev. 26:13-15, 1960.
6. LAWRENCE C. The healing serpent. The snake in medical
iconography. Ulster Med. J. 47:134-140, 1978.
7. WILLIAMS NW. Serpents, staffs, and the emblems of medicine.
JAMA 281:475-6, 1999.
8. BRANDÃO JS. Mitologia grega, vol. 2, 2.ed. Petrópolis, Ed.
Vozes, 1988.
9. CHEVALIER J, GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos, 2.ed.
(trad.). Rio de Janeiro, José Olympio Ed., 1989.
10. ENCYCLOPAEDIA BRITTANNICA. Chicago, 1961
11. HAMILTON E. A mitologia, 3.ed. (trad.). Publ. D. Quixote,
Lisboa, 1983.
12. HAUBRICH WS. Medical Meanings. A glossary of word origins.
Philadelphia, Am. Col. Phys., 1997
13. FRIEDLANDER WJ. The golden wand of medicine. Westport,
Greenwood Press, 1992
14 METZER WS. The caduceus and the Aesculapian staff: ancient
eastern origins, evolution and western parallels. Southern Med. J. 82:743-748,
1989.
15. MUñOZ P. Origins of caduceus. Maryland State Med. J. Oct.
1981, p.35-40.
16. ERNOUT, A. & MEILLET, A.: Dictionnaire étymologique de la
langue latine. Histoire des mots, 4.ed. Paris, Ed. Klincksieck, 1979.
17. FOWDEN, G. The Egyptian Hermes. New Jersey, Princeton
University Press, 1993.
18. SCHOUTEN J. The rod and serpent of Asklepios. Symbol of
medicine. Amsterdam, Elsevier Publ. Co., 1967.
19. McCULLOCH, CC. Jr. – The coat of arms of the medical corps.
Military Surg. 41:137-148, 1917.
20. GARRISON FH. The babylonian caduceus. Mil. Surg. 44:633-636,
1919.
21. TYSON, SL. The caduceus. Sc. Monthly 34:492-498, 1932.
22. INTERNET. Diversos sites de busca em Asclepius, caduceus,
symbol, medical associations e outros.
23. GEELHOED GW. The caduceus as a medical emblem. Heritage or
heresy? Southern Med. J. 81:1155-1161, 1988.
24. NICHOLS, D. – Iatros, vol. 10, n. 10, 1996
25. COLLINS, SG.- Comments on the book The golden wand of
medicine, march 18, 1999 (22)
26. LÁZARO DA SILVA, A. – Símbolo da medicina. Bol. Inf. C..C..
43-45, abril/junho 1999.
Nota: De todas as fontes bibliográficas citadas, merece destaque
especial o livro de Walter J. Friedlander – The golden wand of medicine –
cuja leitura recomendamos a todos os interessados no assunto.
________
*Conferência de abertura do IV Congresso Brasileiro de História da Medicina,
realizado em São Paulo, 17/12/1999.
Publicado em 12/05/2001. Atualizado em 25/06/2004.
e-mail: jmrezende@cultura.com.br
http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende
Observação: A falta de ética na Internet.
Grande parte deste artigo, assim como a bibliografia,
foram inseridos em um texto mais amplo sobre o mesmo tema, publicado em
03/07/2004, que se encontra no site
http://www.cafeesaude.com.br/medicina_artigo.htm
sem menção à fonte de origem ou, pelo menos, citá-lo na
bibliografia.
10/02/2006
| |
|